A idéia de um observatório sobre drogas faz parte de um projeto antigo em minha vida. Voltemos no tempo: dois anos depois da inauguração do CETAD em salvador, fui convidado pelo então presidente do Conselho Federal de Entorpecentes - CONFEN, Técio Lins e Silva, para compor aquele colegiado, enquanto representante do ministério da justiça. O biênio 1987-1989 iniciou transformações fundamentais no modo como o Brasil cuidava de seus filhos usuários de drogas. Desde 1983 os ares da França sopraram sobre nós e nos tornamos parceiros de Claude Olievenstein, fundador do Centre Medical Marmottan, de Paris, instituição revolucionária na atenção aos usuários de heroína. Aquele biênio viu nascer entre nós os primeiros trabalhos epidemiológicos com populações, metodologicamente consistentes, buscando evidências científicas sobre o consumo de substâncias psicoativas que permitissem melhor planejamento na atenção aos usuários e estratégias mais adequadas no campo da informação. Afastado do preconceito dominante, não raro, inspirado pelas idéias norte americanas e vinculadas à guerra às drogas. Os primeiros trabalhos na Bahia, coordenados por Naomar de Almeida filho, foram realizados em Uruçuca e Itabuna, envolvendo alunos das escolas agrícolas mantidas pela Ceplac. Richard Bucher trabalhou com os universitários de Brasília e Elisaldo Carlini apresentou o primeiro grande levantamento sobre o consumo de substâncias psicoativas entre estudantes, em dez capitais brasileiras.

Por outro lado, as dimensões territoriais brasileira dificultavam muito encontros entre os centros de referência, surgidos em diferentes regiões do brasil: Eulâmpio Cordeiro, em Recife; Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas - CETAD, na Bahia; Centro Mineiro de Toxicomania - CMT, em Belo Horizonte; Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas - NEPAD, no Rio de Janeiro, e Programa de Orientação e Assistência a Dependentes-PROAD, em São Paulo. Mais antigos eram o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas - CEBRID, em São Paulo e a unidade de dependência química do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre. Por duas vezes técnicos destes centros se reuniram com o propósito de trocarem informações e estabelecerem parcerias, para além daquelas possibilitadas pelos congressos bi-anuais promovidos pela Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas-ABEAD.

Minha posição foi sempre a de promover o melhor intercâmbio possível. Sempre me pareceu que o CONFEN, hoje substituído pelo CONAD, deveria promover a criação de instâncias voltadas para a obtenção de informações regionais sobre as substâncias psicoativas e seus usos, subsidiando um observatório nacional. A maior justificativa para esta orientação encontrava-se no fato de muitas atividades regionais jamais chegarem ao conhecimento de outras regiões. A distância entre fortaleza e porto alegre, por exemplo, é continental. Neste sentido, mais recentemente, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas - SENAD inaugurou o Observatório Brasileiro de Informação sobre Drogas - OBID, ainda distante do que imagino ser o ideal para o brasil.

Na Bahia, nunca desisti do observatório regional e, finalmente, com o apoio da Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, e da Coordenação Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde, demos início a mais uma aventura: a criação do Observatório Baiano sobre Substâncias Psicoativas, que denominamos CETAD Observa, para onde converge, neste momento, jovens estudantes entusiasmados com a proposta, inventando possibilidades, trazendo para o presente o que foi, no passado, um sonho de futuro, sob a condução apaixonada de Célia Baqueiro, "triplê" de psiquiatra, gestora e coordenadora do Observa.

Tenho a plena convicção que o CETAD entra agora na vida adulta, ao completar em julho de 2010, 25 anos. Sua vocação acadêmica apoiada em suas diversas atividades clínicas, comunitárias, pesquisas e editoriais ganha relevância. Estou certo que o CETAD Observa é o marco deste novo tempo.

Prof. Antonio Nery Filho
Fundador e Coordenador geral do CETAD
Faculdade de Medicina da Bahia/UFBA
(2010)